Tropas Estelares, de Robert Heinlein

Clássico da ficção científica militar, Tropas Estelares, de Robert Heinlein, influenciou o gênero na literatura e no cinema

Por Sidemar de Castro

Imagine uma sociedade futura em que o único modo de alguém se tornar cidadão – e ter direito de voto, por exemplo – é fazer o serviço militar. A Terra, nesse futuro distópico, é controlada por um governo militar em guerra com uma raça de insetoides alienígenas. Tropas Estelares (1959) é considerado um clássico da “ficção científica militar”, um livro tido por muitos como de “direita”, pela sua valorização extrema da vida nos quarteis e governo autoritário. Seu autor, Robert Heinlein, também é, paradoxalmente, autor de outro clássico da FC, este considerado por muitos como de “esquerda”: Um Estranho Numa Terra Estranha (1961), que acabou abrindo caminho para o movimento da contracultura dos sixties.

Robert Heinlein era mesmo um típico escritor “branco conservador”, um ex-militar que lutou na Segunda Guerra e, ao voltar à vida civil, não achava que a sociedade merecia a liberdade que desfrutava e pela qual tantos tinham lutado e morrido. Tudo isso se reflete nas posições políticas que perpassam as páginas de Tropas Estelares, onde o serviço militar era o único modo de um cidadão ascender socialmente e ter direitos básicos, como participar da política. O personagem principal, nessa sociedade mundial, é um jovem argentino, Johnnie Rico, cuja primeira ação ao entrar na adolescência foi se alistar. Acompanhamos ao longo do livro o rigoroso treinamento pelo qual ele passa ao conquistar sua “cidadania”. No acampamento militar, Rico aprenderá a ser um soldado e um cidadão, muito embora fosse de uma classe social elevada e poderia ter levado uma boa vida, mesmo que sem direitos políticos.

Livro Tropas Estelares de Robert Heinlein

Como que para justificar essa sociedade tão militarista, não poderia haver inimigo mais conveniente que uma detestável raça de insetos gigantes e assassinos. Porém, Tropas Estelares tem muito mais do que monstros e militarismo. Na verdade, eles nem são o foco principal do livro, servem mais como um pano de fundo, embora sua presença na guerra espacial, no livro ou no filme de Paul Verhoeven (Starship Troppers, de 1997) seja a base de tudo que aconteça.

Logo no começo do livro temos a narrativa do soldado Rico contando como chegou à Infantaria Móvel (as Tropas Estelares do título), força especial cuja missão principal era realizar operações de “quedas” em trajes de combate, verdadeiras armaduras espaciais voadoras sobre planetas ocupados pelos insetos alienígenas em guerra com a Federação Terrana.

A função da Infantaria é destruir implacavelmente tudo que encontrar pela frente do inimigo. Isso leva a uma narrativa exageradamente bélica e sanguinária (de combate e morte entre humanos ou insetos). Os alienígenas têm de ser exterminados, para bem da sobrevivência da espécie humana. Então voltamos em flashbacks ao passado de Rico, como entrou para o exército e se tornou “cidadão” da Federação (não aquela “Federação” democrática e não-interferente de Star Trek que seria imaginada alguns poucos anos depois na TV, mas uma que mais se assemelha a um império); também vemos como foi seu treinamento nas Tropas e como foram seus primeiros combates contra os insetos.

Esses flashbacks têm a função de mostrar ao leitor como funciona a Federação Terrana, formada após o período em que o mundo entrou em colapso no final dos anos 1990 (que era um longínquo “futuro” para quem viveu nos anos 1950). Rico, jovem cheio de contradições, filho de milionários, entra no exército para provar que não é um privilegiado, que não aceita ser um confortável, rico e seguro “não-cidadão”. Nem todos conseguem se tornar um “cidadão” após o rígido treinamento, mas Rico vence e vai à guerra contra os alienígenas – sendo que ele tem nojo de insetos – por enquanto, apenas os da Terra. 

Desde o treinamento e organização no exército até as missões no espaço, o livro é essencialmente uma história militar, com sequências de batalhas planetárias em “quedas” sucessivas. Uma sucessão de treinamentos e missões militares no espaço, combatendo os insetos interplanetários que se expandem por diversos mundos entrando em choque com os humanos – e a maioria dos leitores tende a ignorar a ideologia, ou conceito dela, que ostenta o governo da Federação Terrana. Mesmo lembrando que o planeta só se salvou do período do colapso quando o direito à cidadania foi retirado de todos e concedido somente a quem prestasse o serviço militar, numa sociedade policial e focada em treino e punição.

Cena de Tropas Estelares, filme de Paul Verhoeven

Num dos flashbacks de Rico, a tese é expressa abertamente na escola dele, quando um professor, um ex-militar aleijado pela guerra, explica os erros da história da humanidade; de como a repressão aplicada desde a infância é que faz a sociedade funcionar “corretamente”.

Muito do que ali se lê parece evocar as questões referentes à delinquência juvenil que se tornava um problema discutido pela sociedade americana na época em que Heinlein escreveu o livro, ou seja, o final dos anos 1950. Se o leitor relevar essa leitura equivocada (que encontra eco no autoritarismo americano de direita) resta se empolgar pelos embates planetários das Tropas Estelares e suas empolgantes “quedas” nos planetas, atacando as cidades e fortalezas dos insetos. A despeito das diversas dúvidas e questões morais e filosóficas que o personagem Rico vivencia naquela sociedade autoritária, tudo acaba “justificado” pela existência de um inimigo implacável. Essa temática vai passar adiante, em maior ou menor grau, em diversos outros livros de ficção cientifica claramente influenciado por Tropas Estelares. 

Herdeiros das Tropas

O livro de Robert Heinlein deixou marcas principalmente na chamada “ficção científica militar”, quase um subgênero em si, principalmente na parte relacionada aos combates espaciais, entre tropas ou naves contra alienígenas os mais implacáveis. Discussões morais e políticas geralmente são deixadas de lado pelo militarismo com raios laser. Alguns livros e autores se destacaram nessa linha de Heinlein, embora a grande maioria não tenha qualidade.

Livro “O Jogo do Exterminador”

Um dos principais é o da trilogia escrita a partir de O Jogo do Exterminador (1985), de Orson Scott Card, e que virou filme com Harrison Ford em 2013. Card foi o primeiro escritor a receber o prêmio Hugo e Nebula por dois anos consecutivos, graças aos seus romances da série Ender, O Jogo do Exterminador e Orador dos Mortos. A trilogia se completaria com Xenocídio, em 1991. Card é também um autor polêmico, em boa parte devido à militância homofóbica, que felizmente está ausente em seus livros.

O que talvez se explique pela sua formação religiosa; de família mórmon, passou depois dois anos como missionário da Igreja de Jesus Cristo e dos Santos dos Últimos Dias no Brasil, onde aprendeu português e acabou até colocando temáticas brasileiras em seus livros, particularmente no planeta Lusitânia, habitado por colonos brasileiros que para lá levaram o português do Brasil, o cafezinho, a cachaça e o carnaval. Card também promoveu a publicação de contos de autores brasileiros em sua revista Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show.

O Jogo do Exterminador

A essência de O Jogo do Exterminador é uma longa guerra espacial – novamente contra uma espécie alienígena de base aracnídea, chamada Insecta. Dessa vez estamos longe dos campos de treinamento militar e de soldados cidadãos, e a esperança da humanidade se coloca no destino de uma criança de seis anos, Ender, do título original (Ender’s game). Em 2164, a Terra já passou por duas guerras contra os Insecta, que por muito pouco não acabou com a espécie humana. Na tensão de uma terceira invasão, o governo envia Ender e outras crianças e adolescentes para jogos de guerra no espaço, tanto reais quanto virtuais. A guerra contra os insetos alienígenas se dá após longo treinamento militar e estratégico e terá consequências graves tanto para os jogadores quanto para as raças envolvidas na guerra espacial, esta realizada entre milhares de naves espaciais e combates em mundos distantes, mas com estratégias que levantam questões morais sobre a existência e a sobrevivência de espécies inteiras.

A Guerra Sem Fim

A Guerra Sem Fim, de Joe Hadelman é outro romance que tem a guerra como fundo e bebeu na fonte de Tropas Estelares, embora ideologicamente possa ser considerado um romance no espectro político oposto, ainda mais que nasceu de um ex-combatente da Guerra do Vietnã.

Livro Guerra Sem Fim de Joe Haldeman

Quando a humanidade faz o primeiro contato com uma raça extraterrestre causa uma guerra espacial que dura séculos. William Mandella (sobrenome sugestivo) é um jovem americano que está entre os primeiros soldados convocados no alistamento obrigatório. A vida na Terra não é fácil e ele se alista. Na guerra, Mandella aprenderá a manusear máquinas mortíferas e a sobreviver ao ambiente inóspito de mundos alienígenas (tão exóticos e duros de viver como as florestas do Vietnã). Além de sobreviver aos horrores da guerra, Mandella entra em constante questionamento sobre seus reais inimigos. A isso se junta a quase impossibilidade de voltar para casa: devido à dilatação temporal envolvida nas viagens espaciais, soldados que passaram poucos meses no espaço descobrem, ao retornar à Terra, que a passagem de tempo no planeta foi de décadas ou até de séculos. Guerra Sem Fim se tornou um clássico da ficção científica militar e recebeu os prêmios Hugo, Nebula e Locus. Serve como metáfora para uma geração que vivenciou a guerra nos anos 60, (o livro foi lançado em 1974). Há notícias de que Ridley Scott (Alien, Blade Runner) pretende adaptá-lo para o cinema.

A Guerra do Velho

A Guerra do Velho, de John Scalzi, é outro herdeiro direto da saga das Tropas Estelares, e tem pontos de contato com o livro acima, embora lançado em 2005. Inicia contando a história de John Perry, um idoso de 75 anos que se alista para a FCD – Forças Coloniais de Defesa. Como seus colegas, Perry não poderá jamais voltar à Terra, onde seu nome jaz num túmulo, e ganhou um novo corpo, verde, mas ainda humano, embora maior, mais forte e aprimorado, contando ainda com uma IA, Inteligência Artificial em seu cérebro, até ser enviado para defender a raça humana em outros planetas e colônias. O Universo de John Scalzi é extremamente hostil. Existem poucos mundos aptos à colonização humana e inúmeras raças alienígenas ameaçadoras dispostas a lutar por eles até o extermínio – algumas até são canibais. Em 2017 a Netflix adquiriu os direitos para desenvolver um filme original baseada na série, que continuou nos livros As Brigadas Fantasma e A Última Colônia, além de mais alguns spin offs no universo do Velho. 

Todos os livros citados, inclusive Tropas Estelares, foram publicados no Brasil, atualmente disponíveis pela Editora Aleph. O Jogo do Exterminador pela Devir.   

Tropas Estelares no cinema

Starship Troopers chegou aos cinemas em 1997, dirigido pelo holandês Paul Verhoeven (do primeiro Robocop). Temos a história do jovem soldado Johnny Rico (Casper Van Dien) na Infantaria Móvel, mas sem armaduras voadoras por questões de custo; as “quedas”, portanto, começam com naves desembarcando como na invasão da Normandia na Segunda Guerra.

Cena de Tropas Estelares, filme de Paul Verhoeven

Os efeitos foram concentrados nos insetos gigantes, que não poderiam ser mais perigosos, asquerosos e mortíferos. Com ação incessante, entre tiros (no melhor estilo Rambo, com metralhadoras enormes e muitos cartuchos) e muito sangue e membros humanos decepados, insetos explodidos em meio a uma gosma nojenta.

O filme também mostra a progressão da carreira militar de Rico, de recruta a oficial, em um ambiente de guerra constante que opõe a humanidade ao planeta dos insetos gigantes, que não parecem tão tecnológicos quanto no livro, o que mostra que o diretor de certa forma “descontruiu” a luta pela sobrevivência das espécies numa guerra de extermínio. Para isso, faz uso de uma maciça propaganda a que estão submetidos os humanos, dignas de como os nazistas “desumanizavam” os judeus na Segunda Guerra.

O visual do filme, com imagens da Federação Terrana que remetem à estética do fascismo ou nazismo, assim como o uniforme das equipes da Inteligência que lembram os trajes negros das SS ou Gestapo, nada é por acaso. Tudo é hiperbólico e exagerado no filme, da ação à violência extrema, e Verhoeven deixou claro, mais tarde, que estava fazendo uso dessa caricatura como meio de ressaltar certos aspectos autoritários da própria sociedade norte-americana – e optou por metralhadoras, ao invés de raios laser, soldados com uniformes mais próximos da Guerra do Golfo do que armaduras de um Robocop, ficando mais próximo do militarismo exacerbado dos filmes de Stallone e Schwarzenegger.

Indicado ao Oscar pelos efeitos, o filme foi detestado pelos críticos, mas rendeu o suficiente para surgirem continuações esquecíveis de tão ruins. O original, no entanto, acabou se tornando uma espécie de FC cult sobre os horrores e glorificação da guerra e o uso que o estado faz dela.

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

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