A Saga do Superman Vol. 1

Por Fernando Fontana

Quem é leitor das antigas, certamente sabe que, antes de Crise nas Infinitas Terras, saga publicada entre 1985 e 1986, roteirizada por Marv Wolfman e ilustrada por George Perez, que organizou, ainda que temporariamente, a bagunça que era a cronologia e o multiverso da DC Comics, Superman era um personagem muito diferente.

Com histórias mais ingênuas e infantilizadas, havia uma prima, a Supergirl, um super cão, e seus poderes o aproximavam de uma divindade, uma vez que era capaz de feitos inimagináveis como mudar a órbita de planetas ou viajar no tempo com sua super velocidade.

Esta é, inclusive, a versão que vemos em “Superman, o Filme” (1978), longa dirigido por Richard Donner, que imortalizou Christopher Reeve como uma das melhores interpretações do Kryptoniano, fazendo o tempo retroceder para salvar sua amada, Lois Lane.

Superman Pré Crise Nas Infinitas Terras, rebocando planetas como se fossem bolas de gude

Com a década de 80 e um universo totalmente novo criado após Crise nas Infinitas Terras, a editora tomou a decisão de reformular seus principais personagens, adequando-os aos novos tempos; coube a John Byrne a tarefa de roteirizar e ilustrar a nova fase do herói que em 1938 inaugurou a Era de Ouro das HQs.

Assim sendo, em “Man of Steel”, minissérie em 06 edições publicada em 1986, Byrne recontou a origem e os primeiros meses do Homem de Aço em Metrópolis.

É esta série que a editora Panini traz, completa, em “A Saga do Superman – Vol. 1”, encadernado de 160 páginas, capa cartão, publicado em abril deste ano, primeiro de uma coleção que promete reunir em ordem cronológica toda fase do herói pelo escritor.

Este é um trabalho para o Superman de John Byrne

Byrne busca, dentro do possível, é claro, tornar o personagem mais realista, e o faz pensando em detalhes como a razão pela qual usa um uniforme tão justo, ou como ele faz a barba, já que um simples barbeador obviamente não daria conta do recado.

Nitidamente tem seus poderes reduzidos; embora ainda seja um dos super-heróis mais poderosos da DC Comics, capaz de erguer um transatlântico e carregá-lo enquanto voa, já não é mais capaz de proezas como viajar no tempo.

Se antes Superman fazia parte da famosa Liga da Justiça e era conhecido no mundo todo, agora, em começo de carreira, desconhecia os demais heróis.

Na edição número 03, temos o primeiro encontro do Superman com o Homem Morcego, outro ícone sagrado da editora. Se no período pré crise eram grandes amigos e companheiros na famosa Liga da Justiça, agora não se conhecem, e Clark se mostra determinado a prender o vigilante de Gotham. É o início de uma dinâmica que seria adotada dali por diante, representantes da luz e das trevas, respeitando-se mutuamente, mas discordando quanto aos métodos adotados no combate ao crime.

Já Lex Luthor, um de seus maiores inimigos, tanto nas HQs quanto nas telas do cinema, muda drasticamente, deixando de ser um cientista louco, para se transformar em algo muito mais letal, um bilionário inescrupuloso e egocêntrico, que de forma direta ou indireta comanda quase todas as empresas de Metrópolis.

Até a chegada do Superman, Luthor era o homem mais poderoso de Metrópolis e o centro das atenções, seu ódio toma forma quando o recém chegado herói não apenas se recusa a fazer parte de sua folha salarial, como o humilha prendendo-o a mando do prefeito.

Esta versão moderna do vilão torna-se intocável por agir nas sombras, comprando a todos com seu dinheiro, e não deixando rastros que o incriminem. Sendo apenas um ser-humano sem qualquer super poder, Luthor sabe que o Superman poderia facilmente derrotá-lo, mas explora habilmente a honestidade e incapacidade do herói de agir fora dos limites da lei.

É Luthor o responsável pela criação de Bizarro, o clone imperfeito do Homem de Aço que conhecemos na edição número 05 da minissérie, e imperfeito aqui pode ser interpretado de muitas maneiras, já que o vilão reimaginado mantém a essência do que é ser um Superman.

Superman e Lois Lane em “A Saga do Superman Vol. 1”

Não é a primeira vez que essa minissérie é publicada aqui no Brasil, anteriormente foi publicada pela Abril, na revista mensal do Superman, antigo formatinho, entre os números 38 e 43, de agosto de 1987 até janeiro de 1988 e em dezembro de 2015, foi republicada completa pela Eaglemoss, em um encadernado capa dura.

O que torna esse volume da Saga do Superman tão interessante, é justamente o que já mencionamos, o fato de ser apenas o primeiro de uma série que acompanhará todo o trabalho de John Byrne, e não apenas a minissérie de origem, além do preço, que embora ainda seja um tanto quanto salgado, por ser capa cartão e não dura, fica mais acessível.

É dinheiro muito bem gasto em uma das melhores fases do Superman.


Fernando Fontana é criador deste site, escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”.

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