O Vale Nerd – “Neon Genesis Evangelion” chegou ao fim!

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje quero falar de algo que significa muito para mim, simplesmente o meu anime preferido de todos os tempos, e não apenas isso. É um anime que me faz recordar uma época específica da minha vida, a minha época de faculdade, a transição da adolescência para a vida adulta, a época em que conheci muitas pessoas novas (incluindo o administrador desse site para o qual escrevo), uma época de formação de personalidade. Hoje quero falar de “Neon Genesis Evangelion” (“Shin Seiki Evangerion” no original).

Falar desse anime não é tarefa fácil, se você fizer uma busca no google vai encontrar um verbete da Wikipédia que cita o seguinte: “A série foi descrita como uma desconstrução do gênero mecha e apresenta imagens arquetípicas derivadas da cosmologia xintoísta, bem como das tradições místicas judaicas e cristãs, incluindo contos midrashicos e da cabala. As teorias psicanalíticas de Freud e Jung também aparecem com destaque.”. Como podem ver, há muita densidade no texto do anime e por conta disso fica muito difícil compreender 100% do que a história tenta passar ao espectador.

Na época em que eu assisti à série original (de 1995) eu estava mergulhado em sucessos da TV como “YuYu Hakusho”, “Samurai X” e todos esses shonen de ação que inundaram a programação nacional. O grande sucesso dessas séries japonesas também trouxe às bancas revistas como “Herói” e “Anime-do”, nelas um anime de robôs gigantes era assunto recorrente (sim, era o próprio “Evangelion”), a enorme quantidade de elogios destinados à animação atiçavam muito a minha curiosidade. E quando um amigo da faculdade “arrumou esse anime na internet” eu fui ao céu.

Parece uma série de robôs lutando contra monstros, mas na realidade é uma desconstrução do gênero que apresenta imagens arquetípicas derivadas da cosmologia xintoísta

Assistir a “Neon Genesis Evangelion” naquela época foi uma experiência única que me marcou pelo resto da vida, tanto que eu nunca mais pude ouvir a versão original de “Fly me to the moon” da mesma forma. A música de Frank Sinatra encerrava cada episódio do desenho sempre em momentos chave e em versões muito inusitadas que iam desde ritmos mais melancólicos até ritmos mais tropicais e agitados. O tema de abertura “Zankoku Na Tenshi No Teese” acompanhado da excelente animação que o preenche me despertava uma empolgação enorme, empolgação que não condizia com o clima absurdamente depressivo da história. Resumidamente, “Evangelion” não era algo que eu pudesse explicar, era algo que eu podia apenas sentir.

Quando a série estreou na Netflix eu fiz questão de assistir tudo novamente e apresentar ao meu marido, que infelizmente não gostou tanto (em grande parte por conta do protagonista). De fato, Shinji Ikari é uma personagem concebida para ser o extremo oposto do que se espera de um protagonista shonen de ação tradicional, em vez do garoto cheio coragem, de energia, esperança, que nunca desiste, quer ser o melhor em tudo e que está sempre lutando pelos amigos, Shinji é uma pessoa triste, amarga, deprimida que passa a maior parte do tempo de cabeça baixa, ou chorando ou se recusando a lutar.

Quando ele luta, é porque seus sentimentos chegaram ao limite e ele simplesmente explode (entra em modo berserk). E quando os remasters conhecidos como “Rebuild of Evangelion” (“Evangerion Shin Gekijōban” no original) estreou na Amazon Prime Video eu também fiz questão de assistir.

Devo sair e lutar contra os Anjos? Não, vou ficar aqui deitado ouvindo Linkin Park

Eu até tinha conhecimento dessa nova versão, só não tive oportunidade de conferir até então. A minha maior surpresa foi descobrir o que havia por trás de toda essa história. Vejam bem, eu assisti à série original nos anos dois mil, e aos filmes “Death & Rebirth” (1997) e “The End of Evangelion” (1997) na mesma época, e sempre achei que a franquia se resumia a isso. Afinal, se você assistiu à versão para a TV do anime, ou à versão da Netflix (e elas não são iguais), você sabe que os episódios finais são completamente abstratos, lisérgicos, e dão margem a inúmeras interpretações. Tanto que os filmes supracitados foram lançados posteriormente para dar uma conclusão mais palpável à saga. São os mesmos eventos ocorridos nos episódios 25 e 26, mas vistos de um outro ângulo e com uma conclusão diferente. E eu nunca entendi o porquê dessas diferenças.

O fato é que, só recentemente eu descobri que, embora a série tenha sido exibida entre 1995 e 1996, e os filmes sejam de 1997. O mangá teve início em 1994 e terminou apenas em 2013, apresentando mais um final diferente.

No ano de 2007, quando eu ouvi falar da versão Rebuild: “Evangelion: 1.11 You Are (Not) Alone” (“Evangerion Shin Gekijōban: Jo” no original), o filme foi descrito apenas como um remake da série original, totalmente redesenhada, com novos efeitos, resolução primorosa e tudo o que os fãs iriam querer. De fato, excetuando-se algumas mudanças pontuais, o primeiro filme realmente parece ser apenas isso, todavia, quando você assiste ao segundo, “Evangelion: 2.22 You Can (Not) Advance” (“Evangerion Shin Gekijōban: Ha” no original), pode notar que as mudanças deixam de ser pontuais e a história começa a se alterar drasticamente.

Ele está tentando entender o final de Evangelion

Tudo isso pelo simples fato de que série, filme, mangá, e rebuild não são versões da mesma história, mas sim, continuações da mesma história. Tudo o que acontece em cada uma dessas mídias é uma história diferente, pois o universo de “Evangelion” está em constante reinício, sempre que Shinji Ikari chega ao ponto de tomar sua decisão final (os dois últimos episódios da série) ele hesita, se sente culpado e tudo recomeça, isso fica claro no final do mangá e nos inúmeros caixões vistos na lua e de onde Kaworu se levanta declarando que “dessa vez vai tentar fazer Shinji feliz”.

A saga se conclui com os filmes “Evangelion: 3.33 You Can (Not) Redo” (“Evangerion Shin Gekijōban: Kyū” no original) e “Evangelion: 3.0+1.01 Thrice Upon a Time” (“Shin Evangerion Gekijōban: Q” no original). Ao final de 2.22 podemos ver que o arco correspondente à conclusão da série foi completamente alterado. Em 3.33 quatorze anos se passaram e da metade do filme em diante, podemos ver que a história finalmente avança para além de tudo o que havíamos visto no anime, mangá, ou nos filmes originais (há até uma mensagem subliminar na música do walkman de Shinji sobre a qual não estou apto a dissertar), de qualquer forma, vemos que após vários reinícios, esse universo parece finalmente se encaminhar para um final.

“Evangelion Rebuild” tem uma animação única repleta de cenas deslumbrantes e uma qualidade realmente excepcional. Me incomoda um pouco a grandiloquência das cenas de ação que te afastam um pouco da relação com as personagens, parece tudo muito feito unicamente para deleite visual e acaba não passando muita emoção genuína.

Em seu derradeiro final, que ao contrário do que se poderia imaginar, não é o 4.44. Podemos concluir com 99,99% de certeza que a saga de Shinji, Rei e Asuka finalmente terminou. Isso porque “Neon Genesis Evangelion” nunca foi sobre robôs gigantes lutando contra monstros gigantes, mas sobre sentimentos e relações interpessoais. Sobre a disputa entre Shinji Ikari e seu medo de se machucar ao se relacionar com outras pessoas, e seu pai Gendo Ikari, com seu ódio pela individualidade humana, e seu projeto de transformar todos os habitantes do planeta em um ser único e perfeito. E quando Shinji finalmente “chora tudo o que podia chorar” e resolve seguir a vida, quando ele finalmente senta-se diante do pai e tem uma conversa sincera, podemos ver que essa história finalmente terminou.

O que? Evangelion não é sobre robôs gigantes? Minha infância está arruinada!

Shinji Ikari, evoluiu como pessoa, conseguiu superar seus traumas e mais de vinte anos após o início do mangá, ele finalmente se tornou adulto. O que eu, particularmente, concluo de toda essa saga é que mesmo que a vida possa ser cheia de traumas, que as pessoas possam te machucar muito, que você possa ser atingido pela depressão, os sentimentos não precisam ser o fim do mundo. Às vezes você pode ter vontade de voltar no tempo e refazer tudo, mas quem disse que essa é a melhor opção?

E se você ainda está se perguntando o que tudo isso tem a ver com o Vale Nerd, bem (fora o subtexto homoafetivo entre Shinji e Kaworu) essa série tem muito a ver comigo. Com minha vida, minhas experiências e com a forma com a qual eu me identificava com o sofrimento da personagem naquela época e como eu atualmente me identifico com seu crescimento e, sinceramente, para mim qualquer pretexto é válido para falar de “Evangelion”.

Nota da Direção: Resumindo, ele queria falar sobre Evangelion e pronto.

E se você quiser conversar comigo, falar seu anime preferido de todos os tempos. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o podcast “Kitsune da Semana”, com muita informação sobre Animes, Mangás e cultura Pop em geral, e em seus episódios 43 e 44 há uma análise muito mais completa do que a minha sobre esses novos filmes. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e está se divorciando porque o marido não gostou de Evangelion

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